domingo, 1 de dezembro de 2013

Corpo roubado da gente


Corpos, não mais gente. Vácuos andarilhos zanzando deprimidos à procura. Disponíveis a serem preenchidos por qualquer encaixe, que mau encaixe, que nem encaixe. Alguma coisa que tente o encaixe, ao menos que seja, tão somente, qualquer coisa.

Corpos, não mais gente. Hastes, feito antenas, tontas e inseguras à procura. De prontidão a ocuparem algum vazio de bela cara, qualquer vazio com cara, um vazio arreganhado mesmo sem cara. Alguma coisa vazia, ao menos que seja, tão somente, qualquer coisa.

De tanto que os corpos se querem com ansiedade, que eles se consomem sem sentido. De tão pouco que as pessoas se enxergam, que elas se perdem do encontro, consigo e com o outro, construindo angústias e frustrações.

Corpo é  morada da gente. O corpo vivo é uma parte do ser que afirma que nele há gente. E é nele que a gente se expressa em emoções - vive as alegrias e sofre as tristezas. Corpo é parte e compõe-se de partes, sim, mas ele tem sentido, e maior valor, se considerado e experimentado como o todo do ser, inclusive e principalmente, quando sua personalidade está inserida e atuante.

Corpo usado como coisa sem dono desvaloriza a gente dona deste corpo. Nem proibido nem errado, apenas pobre. Se há escolha de algo maior para o ser da gente, por que mendigar para atender apenas as partes? Por que se conformar com prêmio de consolação?

Estamos deixando que nossos corpos sejam roubados de nós, por nós mesmos. Estamos a  nos dividir ao invés de  nos fortalecer pela integração. Vamos pensar nisto?